e sou beijada pelas memórias
de pequenos toques fraternos
que embalam todo o meu ser.
de pequenos toques fraternos
que embalam todo o meu ser.
E já não sou eu que ali estou, mas a menina rabina de olhos curiosos abertos num sorriso que alberga o mundo. Sedenta de histórias antigas contadas pela avó, ansiosa por ouvir grandes caçadas feitas em África pelo avô. E lambuzo-me de mangas maduras que a avó vai descascando. O avô acaba por adormecer na sua cadeira de ripas, num sereno ar sonhador. A avó conta-me como se conheceram, como nasceu o amor entre eles, como, entre tantos pretendentes, foi aquele que conquistou o seu coração. Conta-me que, quando ia à fonte, com o cântaro à cabeça, cortava as voltas a quantos lhe queriam falar, virando para uma outra rua. E o meu avô sorri no seu sono, sonhando com a época em que tocava concertina e punha todas as raparigas a dançar. E eu baloiço, na encosta que vai dar ao rio, vou cada vez mais alto, numa adrenalina de vida e emoções.
Acordo com o livro que cai ao chão, num estrondo que me desperta desta letargia que me levou à infância. A minha avó dormita, sentada no sofá ao lado, com o terço ainda nas mãos, depois de ter rezado pelos seus entes queridos, o meu avô e a minha mãe. Invade-me um desejo enorme de a abraçar para lhe agradecer todas as boas memórias do passado.
Célia Gil
Célia Gil
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