Sou frágil! Admito! Também me desfaço em mil pedaços como o cristal que cai desamparado. Sou fraca! Admito! Porque cedo quando urgia impor-me, Acobardo-me e deixo que as pernas vacilem como varas verdes ao sabor do vento norte. Sou pessimista! Admito! Agiganto os problemas criando disfemismos para os distorcer e torná-los do tamanho do mundo.
Sou humana, e depois? É isso que me distingue dos heróis, dos falsos heróis, dos que se dizem heróis. É isso que me distingue dos seres superiores, ou que se dizem superiores e disso se gabam.
É a minha vil condição humana que me faz chorar com os que choram, sofrer com os que sofrem, sorrir com os que sorriem, sentir com os que sentem, amar com os que amam.
Sou humana, e depois? Ser humana é também reconhecer as minhas imperfeições! Célia Gil
O meu silêncio tem música, acordes soltos de uma melodia interior que toca só para mim, em mim. Acordes soltos sem regras, não tocam na perfeição, mas são aqueles acordes que me embalam o coração. A alma geme baixinho no fundo do meu silêncio e eu nino-a devagarinho até adormecer no meu ser. Às vezes é um vibrato que o meu silêncio atinge e, na força do aparato, não sei se a minh’alma finge. Se finge, quão bom é esse fingir que me torna tão imponente! Que importa o seu mentir? E quando o silêncio é sepulcral, ergue-se nele o soprano com que agudizo e engano o meu silêncio monumental. Que importa o seu enganar se me dá a capacidade de sonhar? O meu silêncio de ouro tosco é a música que mais ouço! Célia Gil
Escondi-me atrás de uma porta à espera que o tempo passasse e não me visse. Impiedoso o tempo passou e notou a minha presença. Implacável não descansou enquanto não me encontrou. Fez de mim “gato e sapato”, exigiu-me o “preço da vida”.
Como sou teimosa fiz “finca-pé”, não lhe dei o que me exigia assim “de mão beijada”. Resolvi trapacear o tempo, fiz pirraça, insultei-o, expulsei-o da minha vida. E vivi, plenamente, vivi!
Dancei ao som do vento, fiz da vida um festim, bebi o néctar divino esparzido por Zeus. Rodopiei, “pintei a manta”, senti-me uma bela mulher. Vesti-me, pintei-me a rigor, ri do bom e do menos bom, mas fui intensamente feliz.
Quando voltei, nunca pensei, o tempo só me contemplava. E eu, que o ignorara até ali, só então me apercebi como me olhava. Era chegado o tempo de pagar a factura, nada é dado “de mão beijada” e a contrapartida do tempo era tudo menos desejada.
Ali me fez despojar-me de mim, perder a graciosidade da dança, sentir o fel do néctar de Zeus, cair em meio de um rodopio. E a roupa com que antes brilhava, estava agora desactualizada. A tinta com que me pintara pela face escorrera e se espalhara em sulcos cravejados na pele.
Afinal, o tempo sempre ali estivera, quem sabe…à minha espera… Só eu saí de trás da porta, mas esta não desapareceu, esperou por mim, paciente. E, sentado numa cadeira, o tempo continuou presente como quem espera o rato com a sua infalível ratoeira. Célia Gil
É urgente convocar um Consílio entre os Deuses de todas as religiões e gerações! Quem quer que o convoque, Mercúrio a mando de Júpiter, Jeová através de Jesus, Deus por meio da Nossa Senhora ou quem quer que seja. Impõe-se mudar o rumo que a sociedade, a política, as mentalidades, o mundo, vão tomando. O homem, por si só, já não consegue, sozinho, enfrentar as consequências dos seus actos.
Que neste Consílio, os Deuses estejam todos sentados ao mesmo nível, sem hierarquias, sem ditaduras, sem censura, PIDE, autoritarismo…com igualdade!
Neptuno, enamorado da deusa Cibele (deusa mãe da natureza), defendeu-a. Esta terá reclamado o que era dela e Neptuno invocara os tsunamis para recuperar o que o homem ao mar usurpou.
Apolo justificou, com a concordância de Éolo, que não conseguiu impedir-se de afectar com os seus raios ultravioletas, a camada do ozono que foi diminuindo a sua espessura com as mudanças dos ventos.
Marte mostrou-se exaltado, referindo países que fizeram um incorrecto uso das armas, colocadas nas mãos de crianças filhas da guerra, responsáveis por verdadeiros actos de chacina.
Vénus manifestou também o seu desagrado perante a actual situação, mencionando que cada vez os povos se mostram menos amorosos e que foram perdendo a magia da tão sua amada língua latina, que se vê cada vez mais corrompida.
Todos os deuses, com ordem e convicção, tentam, nos seus ideais, encontrar uma forma de superar o estado do mundo. Júpiter vai ouvindo, cada um na defesa das suas convicções.
A Igreja Católica acredita nos sacramentos e no devido respeito por estes para uma mudança. O Protestantismo expõe as suas 95 teses de Martinho Lutero, onde estão certos de que está a solução. A Igreja Ortodoxa fala, sem problemas, dos seus 7 princípios ecuménicos, os únicos que poderão salvar a humanidade. O islamismo afirma que exporá os ensinamentos religiosos do profeta Maomé, sem os quais o homem se perderá. As Testemunhas de Jeová afirmam ter a solução em Jeová e expõem as razões que as levam a acreditar que todos devem ser seguidores de Jesus Cristo. O Reino de Deus manifesta que conseguirá declarar a sua teoria acerca da soberania de Deus e dos que foram expulsos do Jardim do Éden, para que todos encontrem a salvação para as suas almas. E muitos outros deuses prosseguem falando dos seus ideais, de tudo o que têm feito para evitar um colapso religioso. A confusão impõe-se perante estas diferentes concepções tomadas como verdades inquestionáveis. Gera-se o tumulto. O mundo treme perante este Consílio sem comunicação possível, até que Júpiter decide intervir e pôr termo à confusão instalada. E, com um tom de voz que cala os presentes pela sua imponência e força, comunica a decisão final: “Deixemo-nos, pois, de vinganças, de guerrilhas, de incompreensões! Não há um único dono da verdade e da salvação! Impõe-se um entendimento! Reunamos os nossos esforços! Que seja elaborado um Tratado de Paz com os homens, por estes e por todos nós assinado, para que termine a violência, se acabe com a discórdia, se evite afundar mais o mundo, acabem as guerras religiosas e políticas. Que cada um dos deuses se concentre em propagar a sua fé em vez de estar concentrado numa discórdia inglória! Que essa fé entre nos corações humanos, acalme os ânimos, fortaleça a confiança e faça renascer a esperança num mundo melhor!”
Célia Gil
(Infelizmente, o Consílio que se impõe e sobre o qual divaguei é mera ficção, ficção esta inspirada no célebre Consílio dos Deuses de Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões e na necessidade imperiosa de contribuir para um mundo melhor, com fé).