sexta-feira, 6 de maio de 2011

Eternizar momentos

Célia Gil

(imagem do Google)

Gostaria de ter o dom
de eternizar momentos.
Guardá-los em esconderijos
secretos da memória.
Reter todos os pormenores,
os mais ínfimos e recônditos,
aqueles que dão sentido à vida,
nos renovam a auto-estima
e nos tornam pessoas melhores.
Se pudesse eternizar momentos,
povoaria a minha vida de amor,
borrifaria com a essência da paz
toda a minha vida.
Pintaria um quadro
que me espelhasse eternamente jovem
e onde me visse, para sempre,
rodeada dos que mais amo e amei.
E, nos momentos vazios,
bastaria esticar o braço
e pegar naqueles momentos inesquecíveis,
reaver os queridos que partiram,
voltar aos locais que me marcaram.
Seria o dom perfeito
o de tudo eternizar!
                                       Célia Gil

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Pudera eu manter-me jovem de espírito

Célia Gil
(imagem do Google)

Tudo na vida
requer aprendizagem.
E eu, que até sou boa estudante,
eterna estudante,
quero aprender até ser velhinha.
Saber mais e mais,
estimular o cérebro,
alimentá-lo de conhecimento,
não o deixando cair no vazio
do humano esquecimento.
Quero manter activos
os meus neurónios,
usufruir do que me é dado
a ver, a ler, a aprender
nas várias fases da vida.
Crescer sem, no entanto,
envelhecer mentalmente,
sem criar teias de aranha
entre neurónios vazios.
Mas mantê-los sempre activos.
Permite-me, Deus meu,
envelhecer com dignidade,
passar pelos anos
com pezinhos de lã,
sem acordar a idade…
Trapaceá-la
e ser uma eterna
jovem de espírito!
                             Célia Gil

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A vida é feita de questões irrespondíveis

Célia Gil

(imagem do Google)

Quando foi que perdi
o céu azul que cobria os meus dias?
Quando foi que percebi
que o sol deixou de brilhar nas minhas fantasias?
Onde perdi eu o sorriso
que se abria prontamente?
Onde deixei eu a lágrima
sempre pronta a formar torrente?
Sinto que me ausentei de mim,
perdi a força que me fazia viver…
Essa força e a coragem, que fim
tiveram? Porque deixei de ser?
Como posso contemplar o rio
sem que os meus olhos naufraguem em ilusões?
Porque já não choro dias a fio
quando sofro? Onde perdi as emoções?
O que me fez tornar nesta pedra fria
sem sentimentos, desprovida de vida?
O que me fez ficar assim vazia,
do bem e do mal tão esquecida?
Não é possível que fique estática
perante alguém que vejo sofrer…
Onde está o eu, força enigmática
que tinha e dava aos outros força de viver?
Que apagão terá sofrido o meu olhar
para não reagir a nada?
Onde ficou o ser que sabia amar?
Em que noite? Em que alvorada?
Só sei que estou imune,
sou rocha fria e envelhecida,
que sem sorriso e sem queixume,
é simples ausência de vida.
Como nos deixamos nós fugir?
Como chegamos a este ponto
em que resta a ausência do sentir,
o esquecimento, o desencontro?
Perdi-me! Esqueci-me de quem sou!
Agora não sei para onde vou…
Nem se ainda vou…
Sei apenas que tudo mudou
e nada, nada mesmo, ficou!
                                       Célia Gil

terça-feira, 3 de maio de 2011

Perda da inocência das palavras

Célia Gil
(imagem do Google)

Nem sempre conseguimos cuspir as palavras
que nos irrompem na mente
perante uma atitude inadequada.
Asfixiamo-las na garganta,
impedindo-as de jorrarem,
com medo de as receber de volta.
Nem sempre a força e a coragem
nos permitem dizer o que pensamos,
o que nos vem prontamente à cabeça.
Limamos o pensamento de tal forma
que nada fica para dizer
de tudo o que não foi dito.

Por isso as crianças são genuínas,
não limam as palavras,
proferem-nas sem reservas,
ainda que constituam a maior barbaridade.

Quem me dera ser criança
para não ter o peso da consciência,
para poder dizer o que penso
quando penso e como penso.
Ser recebida com condescendência,
ser perdoada pela ignorância,
desculpada pela inocência
das palavras que soam à infância.
Que saudades, Deus meu,
desses tempos em que era genuína,
em que o limite era o céu
e os meus sonhos de menina.
Palavras brincalhonas, dançantes,
rebolando da mente para fora,
palavras agressivas, sonantes,
que irrompem da boca sem demora.
Palavras trôpegas, tropeçando em inocência,
soltas qual voos de ave embriagada,
recebidas com profunda benevolência.
Palavras mal ditas, inadequadas,
algumas inocentemente maldosas,
simplesmente desculpabilizadas,
ausentes de mensagens maliciosas.

Mas a idade é uma condição,
um posto, que traz a consciência.
E a palavra perde a expressão
remetida ao silêncio da sua incoerência,
não desculpável pela inocência!
                                             Célia Gil

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Aprender a aceitar a imperfeição

Célia Gil

(imagem do Google)



Quando sentimos que tudo é perfeito,
pensamos ter encontrado a paz.
Mas o mundo não é perfeito
e esses momentos são quimera…
De um momento para o outro
sentimos o chão fugir-nos,
tudo rui à nossa volta.
E a paz desmorona-se,
dissolvendo-se em partículas de nada.
Mas será a perfeição o ideal?

Provavelmente não!

A perfeição levar-nos-ia
à monotonia dos dias repetitivos,
conduzir-nos-ia à preguiça
face às escolhas a fazer,
todas tão perfeitas quanto irreais.
E o cansaço não nos deixaria
usufruir dos pequenos pormenores
que fazem toda a diferença.
Detenhamo-nos na irregularidade,
Aceitemos e apreciemos a diferença,
sedutoramente inigualável.
Fujamos dos estereótipos
e fruamos cada novo acontecimento,
aprendendo com os erros
e aceitando a imperfeição.
                                         Célia Gil

domingo, 1 de maio de 2011

Mãe

Célia Gil

(imagens do Google)


Porque Deus te quis para Si

se me fazias ainda tanta falta?

Se não me basta o teu retrato

onde as tuas feições se vão esbatendo?

Sim, sou egoísta!

Queria-te só para mim!

Precisava tanto de ti...

Tinha tanto para te contar…

Tanto para desabafar…

Não há dia em que te não recorde

em palavras ditas,

em sorrisos lembrados,

em olhos meigos guardados

nas gavetas da memória.

Preciso de ti,

nem que seja apenas nessas memórias,

saber que estás algures,

me vês e olhas por mim.

Continuarei a desabafar contigo,

senão, a quem contaria as minhas desventuras?

Com quem partilharia a minha vida?

Como gostaria que pudesses ver os teus netos,

que crescidos estão!

Como os mimarias, avó babada!

Mas a vida é assim…

Quero acreditar que nos vês,

zelas por nós

e nos continuas a mimar!

E sempre que precisar dos teus mimos,

abrirei as gavetas que estimo

e abraçarei todas as recordações

que, apesar de me fazerem sofrer

por reviver toda a dor que sentiste,

me continuam a acalentar o coração,

a embalar a alma, ninando-a até acalmar,

como se fosse tocada pelos teus dedos

numa infinda carícia maternal!
                                                Célia Gil



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