terça-feira, 6 de setembro de 2011

Quero despertar a poesia

Célia Gil

(imagem do Google)

Quero despertar a poesia
que adormeceu nos meus olhos,
restituí-la às coisas mais simples,
dar-lhes novo brilho,
vesti-las de borboletas,
borrifá-las com aromas inebriantes,
numa purpurina de vida.

Quero despertar a poesia
que a azáfama do dia a dia
ousou roubar.
Desenhar um novo brilho nos olhos,
alongar o sorriso que vem de dentro
e deixá-lo contemplar tudo
como se fosse a primeira vez.

Quero despertar a poesia
que esqueci debaixo da almofada
quando me esqueci de sonhar.
Deixá-la divagar,
rodeada dos seus duendes e fadas,
de florestas, frutos e flores,
de paixões, desilusões,
de amores e desamores,
mas…repleta de emoções!

                                    Célia Gil

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Fonte, confidente eterna

Célia Gil

(foto daqui)

As tuas águas correm, límpidas e puras,
desde há muitas gerações,
fonte de aventuras e desventuras,
fonte de ilusões e desilusões.
Homens solteiros lançando
as redes do amor a belas raparigas
que se faziam desentendidas
enquanto eles as iam mirando.
Pela noite adentro, fonte de ressaca
de quem andou vagabundeando
de bar em bar, de tasca em tasca.
Outras vezes fez-se acompanhar
de senhoras em rendas entretidas
que a língua matreira aproveitavam para desenrolar
enquanto laboravam enxovais às comprometidas.
E à tarde, bem à tardinha,
cúmplice da moça chorosa,
confidente da rapariguinha
na sua desilusão amorosa.
Pouco antes da missa, homens ali se sentavam
para trocar dois dedos de conversa
enquanto elas o terço na Igreja rezavam.
Fonte de encontros amorosos
única testemunha de beijos roubados
por moças e moços formosos
em encontros não planeados.
Fonte de tantos e tantos momentos,
vida correndo lembrada em água,
água que sacia os sentimentos
perpetua o amor e afoga a mágoa.
                                     Célia Gil

sábado, 3 de setembro de 2011

Quando a velhice se apodera da alma

Célia Gil
Como amanhã estou fora (serei madrinha de casamento de um primo a uns kilómetros daqui), deixo a postagem hoje:

(imagem do Google)

Olhos enrugados e encovados
espreitam inertes a vida que já não é,
olhos vividos e parados
de quem perdeu do arco-íris a fé.

E os dias passam repetidamente
cravejando rugas, acumulando anos,
sem aura de futuro neste presente
de tantas mágoas e desenganos.

As lágrimas secaram, a boca silenciou
toda a esperança e emoção…
A razão de viver apagou
o passado do cansado coração.

Entristeço por ver morrer lentamente
toda a vossa força de viver
e não estar de todo em meu poder
devolver-vos o brilho nos olhos
e desenhar-vos um novo arco-íris na mente.
                                                     Célia Gil




Estática

Célia Gil
(imagem do Google)

Hoje é daqueles dias
em que me sinto soturna.
Deixei os reflexos espontâneos
ao dobrar a esquina do passado.
E o futuro assemelha-se
a um grande “bicho papão”,
ao “homem mau” que virá
se não for boa menina.
Às vezes olho-me ao espelho
e vejo a menina franzina
com medo da própria sombra,
mas já não fujo,
a menina que fugia fugiu para sempre.
Limito-me a ficar,
ainda que estarrecida,
sentada no meu cansaço,
sorvendo um ar pensativo.
Estou só e a sós
com os meus medos e angústias
e assim permaneço…estática!
                                    Célia Gil



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Súplica à pena

Célia Gil

(imagem do Google)

A pena suplica
por afagar uma vez mais
a folha de papel,
fazendo-a dançar de madrugada,
num carrossel de emoções,
numa roda viva de cores,
numa simbiose de odores,
em amplos voos de divagações.
E quando a mão rejeita
fazer dançar a pena,
a folha esmorece, perde o brilho,
as emoções ficam acorrentadas
em estreitas celas da alma,
a criatividade remete-se ao silêncio
na obscuridade das coisas por dizer,
na profundidade das coisas por escrever.
E o meu peito pesa,
transborda de sensações
que guarda até ao limite,
fazendo-me roçar
o limiar da loucura
num total descontrolo,
de que só a pena me poderá libertar.
                                         Célia Gil

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Rio do perdão

Célia Gil
(imagem do Google)

A coragem de pedir perdão,
depois de reconhecer os erros,
é como um banho de rio
depois de um extenuante dia de trabalho.

Custa penetrar nas suas águas gélidas,
demora a submergir por completo,
deixando a respiração entrecortada
e os nervos à flor da pele;
mas, no fim, há uma sensação de alívio,
um leve tremor de prazer
que transborda do peito,
porque se conseguiu nadar em perdão,
recuperar a paz,
poder fechar os olhos
e sentir os erros afogarem-se
para sempre e não se repetirem.

Há que saber pedir perdão
para se navegar neste rio
que é a vida a seguir o seu curso.
                                     Célia Gil


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