Aquele quintal cheira a momentos que passaram, embebidos de naftalina para não se deixarem corroer pelas traças do tempo.
E nesta porta que abro esporadicamente, sempre que preciso de alento, remexo com uma chave preciosa na fechadura velha e ferrugenta, que teima em não se deixar abrir, que é a minha chave, só minha. A chave da minha casa de Luanda. Quando consigo, é uma batalha ganha às traças do tempo. A naftalina dissipa-se para deixar entrar todos os aromas que envolveram a minha infância. Cheira a camarão, a flores, a tremoços, a cerveja, a gasosa, a mangas, a fruta pinha, a mamão, a felicidade, a amor, a carinho, a gente, a suor, a mãe e pai, a água, a vida.
Mas abro a porta muito devagarinho. Quero comprazer-me com cada segundo que me é concedido, com todos os pormenores acessíveis à visão e ao olfacto.
Espreito, pela porta entreaberta, e vejo-me lá, um metro de gente, a saltar, a correr atrás de um cão rafeiro muito esperto, a rir alto e com vontade, a andar de triciclo, a refrescar-me numa mangueira que rega as flores e árvores dos canteiros, a sentar-me ao colo do meu pai, que ri e conversa alegremente. Paro e tento escutar o que dizem nessas conversas. Só ouço pequenos fragmentos de conversas soltas, que não sei precisar, e que não é importante precisar, porque estão felizes e isso é o que importa. Provavelmente contam peripécias do dia-a-dia, pequenos acontecimentos que servem para uma tarde bem passada entre amigos e familiares. Já não interessa o que dizem, só o que sentem e a alegria em que estou. Vejo-nos sair. Escondo-me atrás de um muro alto que se situa perto da porta. Sigo-os, sigo-me de olhos bem abertos, não querendo perder o rumo dos seus passos. Entram num carro azul, um Datsun azul, com muito bom aspecto, e sigo-os. Param junto a uma geladaria, perto de uma rotunda com palmeiras, e entram, alegres e confiantes. Estão felizes.
Regresso, então, ainda enlevada pelas gargalhadas. Hoje bebi uma refrescante limonada de memórias e sinto-me reconfortada e fresca. Guardo a chave no bolso, bem guardada, porque sei que, quando estou triste, preciso dessa chave mágica, para me dar um pouco de acalento aos dias mais cinzentos da minha vida.
Célia Gil
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