quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O quintal da minha infância

Célia Gil


(imagem do google)

Aquele quintal cheira a momentos que passaram, embebidos de naftalina para não se deixarem corroer pelas traças do tempo.
E nesta porta que abro esporadicamente, sempre que preciso de alento, remexo com uma chave preciosa na fechadura velha e ferrugenta, que teima em não se deixar abrir, que é a minha chave, só minha. A chave da minha casa de Luanda. Quando consigo, é uma batalha ganha às traças do tempo. A naftalina dissipa-se para deixar entrar todos os aromas que envolveram a minha infância. Cheira a camarão, a flores, a tremoços, a cerveja, a gasosa, a mangas, a fruta pinha, a mamão, a felicidade, a amor, a carinho, a gente, a suor, a mãe e pai, a água, a vida.
Mas abro a porta muito devagarinho. Quero comprazer-me com cada segundo que me é concedido, com todos os pormenores acessíveis à visão e ao olfacto.
Espreito, pela porta entreaberta, e vejo-me lá, um metro de gente, a saltar, a correr atrás de um cão rafeiro muito esperto, a rir alto e com vontade, a andar de triciclo, a refrescar-me numa mangueira que rega as flores e árvores dos canteiros, a sentar-me ao colo do meu pai, que ri e conversa alegremente. Paro e tento escutar o que dizem nessas conversas. Só ouço pequenos fragmentos de conversas soltas, que não sei precisar, e que não é importante precisar, porque estão felizes e isso é o que importa. Provavelmente contam peripécias do dia-a-dia, pequenos acontecimentos que servem para uma tarde bem passada entre amigos e familiares. Já não interessa o que dizem, só o que sentem e a alegria em que estou. Vejo-nos sair. Escondo-me atrás de um muro alto que se situa perto da porta. Sigo-os, sigo-me de olhos bem abertos, não querendo perder o rumo dos seus passos. Entram num carro azul, um Datsun azul, com muito bom aspecto, e sigo-os. Param junto a uma geladaria, perto de uma rotunda com palmeiras, e entram, alegres e confiantes. Estão felizes.
Regresso, então, ainda enlevada pelas gargalhadas. Hoje bebi uma refrescante limonada de memórias e sinto-me reconfortada e fresca. Guardo a chave no bolso, bem guardada, porque sei que, quando estou triste, preciso dessa chave mágica, para me dar um pouco de acalento aos dias mais cinzentos da minha vida.
                            Célia Gil

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Quando as ilusões desmoronam

Célia Gil

(imagem do google)

Durante toda a vida
acumulamos acontecimentos,
colecionamos sentimentos
até que esteja preenchida.
Construímos com eles altos
castelos de ilusão,
enfrentamos sobressaltos
mantendo-os em pé com dedicação.
Se os castelos tendem a desequilibrar-se
amparamo-los, a queda impedindo,
não queremos vê-los desmoronar-se
mas apenas subindo, erigindo...

Mas há um dia em que o vendaval
chega sem sequer avisar,
sem sequer dar sinal
e vira as ilusões de pernas para o ar.
Anos de um lento edificar
que vemos, espalhados pelo chão,
sonhos desfeitos sem nada restar
a não ser a dor da deceção.
E só há de duas uma solução,
escolha difícil, na decisão a tomar,
desistir, ceder, vegetar
ou começar do zero a nossa missão.
Então, há que encarar
o vendaval como uma lição,
o dia a dia será um novo recomeçar,
não o início de uma obrigação.
Para quê erguer novo castelo?
As ilusões não devem ser moldadas.
Para quê viver com excesso de zelo
se as ilusões não se querem aprisionadas?

Cada dia será um novo dia,
um dia para viver a ilusão
que, com um pouco de sabedoria,
voltará a erguer-se do chão.

E quando vier a rajada
do vento da destruição,
descerá em nós qual alvorada
e fará brotar nova ilusão.
Insistente, desprendida, libertada
e preparada, sempre, para nova missão.
                                             Célia Gil

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Lobo Mau do século XXI

Célia Gil

(imagem do google)

     Até que ponto conhecemos mesmo as pessoas que julgamos conhecer? E será que as pessoas se dão mesmo a conhecer ou têm um alter ego subterfúgio que esconde os seus verdadeiros desejos, anseios e personalidade? E o que é, afinal, a personalidade? Aquela que se expõe perante a sociedade coincidirá com a que é muito íntima, pessoal e intransmissível?
     Quando olho para as pessoas, gostaria de ter o dom de visionar tudo o que não é percetível pela íris dos meus olhos. Gostaria de saber se o pudor, a consciência, a competência que apresentam e exteriorizam corresponde ao que sentem, anseiam e desejam. Mas o ser humano é um mistério e surpreende-nos a cada momento. Nem sempre da melhor forma.
     Por trás de um pai de família responsável e trabalhador não está, sobejas vezes, um ser sexualmente perturbado, um ser mentalmente desorganizado e que apenas consegue manter as aparências graças à sua inteligência?! Quantas vezes os crimes mais macabros, as condutas mais reprováveis, as atitudes mais repreensíveis não estão por detrás de uma figura real ficcionada, aparentemente de caráter íntegro e de conduta irrepreensível?
     Atenção que o "Lobo Mau" dos nossos dias é um indivíduo desequilibrado, mas suficientemente esperto para fazer crer aos que o rodeiam no dia a dia que é um inofensivo amigo do "Capuchinho Vermelho". Inofensivo ao ponto de super proteger, controlar e não se descontrolar, arranjando desculpas pertinentes e plausíveis e estratégias para ser a vítima e fazer do outro a fera, quando deixa entrever as orelhas ou arregala mais os olhos.
     O "Lobo Mau" dos nossos dias é o que percebe de política, fala de cultura, socializa com os vizinhos, acarinha os mais próximos quando é preciso. E repito quando é preciso! A sua afabilidade tem limites e não é despretensiosa. Há sempre o pensar de toda e qualquer atitude, pois nada acontece por acaso.
Por isso, jovens de hoje, cuidado com o "Lobo Mau"!
Célia Gil

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Deitar os problemas ao largo

Célia Gil
Resultado de imagem para gaivotas

(imagem do google)



Bandos de gaivotas trespassam a minha cabeça
em voos de um azul petróleo estonteante,
e vejo em cada uma um problema que se libertou
e o céu enche-se de milhares de problemas
que se dissipam e parecem tão ínfimos no vasto horizonte.
Se a humanidade pudesse deitar os seus problemas ao largo,
deixando-os voar na vastidão desse céu de amor,
quem sabe eles não se dissipassem de vez
e se transformassem em estrelas abrilhantando a noite
e iluminando toda a escuridão humana...
Quem sabe...
                                                Célia Gil

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Alma ansiosa

Célia Gil

(imagem do google)

Este meu sentir forte e poderoso
deixa o coração a bater mais forte,
sentir devastador e doloroso
que tantas vezes faz perder o norte.

Alma sedenta de sentimentos,
capaz de virar o mundo do avesso,
em que as recordações viram tormentos.
Ser de memórias eternas possesso.

E esta sede de viver e sentir
nem sempre acalma e adormece o ser
antes no nosso intento persistir

e em cada dia um novo amanhecer,
ansiedade de ficar e fugir
de viver, esquecer, permanecer...
                                      Célia Gil

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Superar as adversidades

Célia Gil

(imagem do google)


Se a saudade chegar
num momento de fragilidade,
não a olhes com a ansiedade,
aproveita para a embalar
até que adormeça
e de ti se esqueça.

Se a tristeza te observar
não lhe ligues,
não a instigues,
que ela acaba por se afastar.
E pelo próprio cansaço
deixará o teu encalço.

Se a vida te decepcionar
não desistas logo à primeira
prossegue com foice certeira
até o objetivo alcançar.
Decepções todos temos,
mas a todas sobrevivemos!
                                   Célia Gil

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