segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Há momentos

Célia Gil

(imagem do google)



Há momentos em que
uma força poderosa,
mágica e secreta
nos empurra para a escrita.
Sossegar emoções?
Acalmar o desassossegado coração?
Deixar fluir a alma?
Não há explicação.
Só sei que...

Há momentos.

Daqueles que não esmorecem,
que nos impulsionam,
arremetendo de um intenso formigueiro
a mão que escreve
e o cérebro que fervilha.
E então
é com a pulsação acelerada,
a alma inflamada,
que me espraio nas folhas em branco,
que me enlaço nas palavras,
me quebranto,
me deixo envolver pela força dos sentimentos.
E tudo porque…

Há momentos!
                                          Célia Gil



sábado, 25 de fevereiro de 2012

Beijos

Célia Gil
(imagem do google)



Um beijo é um gesto sentido,
uma amizade agraciada,
um amor consentido,
uma carícia consumada.
Beijos há muitos…
Beijos da alma a um filho,
daqueles que apertam laços
que nos enchem o peito de amor!
Beijos de incentivo a um amigo,
com o intuito de o acalmar,
de nas quedas o amparar!
Beijos repenicados aos netos,
na bochecha suculenta,
que até a alma alimenta!
Beijos contrariados pela obrigação,
dados por delicadeza e educação,
mas desprovidos de emoção.
Beijos dados ao ser amado,
explosivos, suculentos,
que marcam momentos,
deixando o relógio parado!
Beijos na testa,
que nos lembram os nossos pais,
desses beijos que queremos sempre mais.
Beijos no nariz,
que nos deixam envergonhados
ao falharem por um triz.
Beijos que são sonhos,
dados com as palavras,
sentidos com os olhos,
ouvidos com a alma…

Beijos merecidos, imerecidos,
dados ou por dar,
repentinos, compridos,
doces ou amargos,
suaves ou agressivos,
velhos, novos,
roubados, consentidos.


Beijos são fonte de vida,
manifestações de afecto,
que tornam a alma colorida,
deixando o corpo desperto.


Beijos! Oh, quantos beijos!

                               Célia Gil

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Dias atribulados e novo projeto

Célia Gil
Apesar de super ocupada com testes, avaliações intercalares, resolvi começar a escrever um livro. Por isso estarei mais ausente do blog, mas, sempre que puder, dou aqui um pulinho. Não tem ainda título, mas posso adiantar que a protagonista é uma mulher dos seus 30 anos que, um ano após a morte da avó, vai à aldeia dela pôr a casa à venda e desfazer-se das coisas. Porém, é aí que tudo começa. Conheceria ela realmente a enigmática avó Dulce? Estaria preparada para abrir a porta de uma divisão que nunca vira e sobre a qual sempre se questionara? E um sótão que desconhecia? Que surpresas lhe reservara a avó?
Apenas tenho aproveitado os pouquinhos tempos livres que me restam para passear, tratar da minha horta e da casa. Aproveito para deixar algumas fotos da paisagem belíssima que tenho aqui perto de casa, tiradas num destes passeios.
As oliveiras, colhida a azeitona, são agora podadas. Em baixo os campos enchem-se de flores numa primavera antecipada.

O meu Dragão, a aproveitar o passeio, adora andar em cima dos muros!

Árvores com ninhos de cegonhas!

Um céu esplendoroso num final de tarde.


O Filipe, meu filho mais novo, que ainda gosta de passear connosco!

O Hulk, agora com seis meses, cansado da caminhada.

Boa semana e boas inspirações!


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Noite

Célia Gil
Resultado de imagem para noite
(imagem do google)
No silêncio atroz da noite,
qualquer pequeno e breve som,
ecoa assim ... monstruosamente,
como um duro maléfico açoite.
Descanso meu cansaço no teu leito,
nas trevas da tua sombria solidão.
De olhos fechados fujo à razão
e em paraísos artificiais me deleito.
Quantas vezes me fazes sofrer,
com recordações que não desejo,
com profecias que não almejo,
momentos que preferia esquecer.
Por entre as paredes do meu ser,
és tu, feiticeira, que me procuras,
me tornas deusa das tuas loucuras,
para depois, ao acordar, sofrer.
Lá fora a noite é fria e escura,
há um vento que sopra longamente
não há luz, vida, gente...
Apenas uma realidade tão dura.
A chuva cai como lanças,
o mocho já nem ecoa o seu canto.
apenas um arrepiante frio, um pranto,
fragmenta meu ser, quebra alianças.
Mas, no fundo, de uma beleza triunfal,
atrais-me com íman poderoso.
Tens um cheiro doce e prazeroso.
Fujo...mas perco-me na Noite fatal!
                                        Célia Gil

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O quintal da minha infância

Célia Gil


(imagem do google)

Aquele quintal cheira a momentos que passaram, embebidos de naftalina para não se deixarem corroer pelas traças do tempo.
E nesta porta que abro esporadicamente, sempre que preciso de alento, remexo com uma chave preciosa na fechadura velha e ferrugenta, que teima em não se deixar abrir, que é a minha chave, só minha. A chave da minha casa de Luanda. Quando consigo, é uma batalha ganha às traças do tempo. A naftalina dissipa-se para deixar entrar todos os aromas que envolveram a minha infância. Cheira a camarão, a flores, a tremoços, a cerveja, a gasosa, a mangas, a fruta pinha, a mamão, a felicidade, a amor, a carinho, a gente, a suor, a mãe e pai, a água, a vida.
Mas abro a porta muito devagarinho. Quero comprazer-me com cada segundo que me é concedido, com todos os pormenores acessíveis à visão e ao olfacto.
Espreito, pela porta entreaberta, e vejo-me lá, um metro de gente, a saltar, a correr atrás de um cão rafeiro muito esperto, a rir alto e com vontade, a andar de triciclo, a refrescar-me numa mangueira que rega as flores e árvores dos canteiros, a sentar-me ao colo do meu pai, que ri e conversa alegremente. Paro e tento escutar o que dizem nessas conversas. Só ouço pequenos fragmentos de conversas soltas, que não sei precisar, e que não é importante precisar, porque estão felizes e isso é o que importa. Provavelmente contam peripécias do dia-a-dia, pequenos acontecimentos que servem para uma tarde bem passada entre amigos e familiares. Já não interessa o que dizem, só o que sentem e a alegria em que estou. Vejo-nos sair. Escondo-me atrás de um muro alto que se situa perto da porta. Sigo-os, sigo-me de olhos bem abertos, não querendo perder o rumo dos seus passos. Entram num carro azul, um Datsun azul, com muito bom aspecto, e sigo-os. Param junto a uma geladaria, perto de uma rotunda com palmeiras, e entram, alegres e confiantes. Estão felizes.
Regresso, então, ainda enlevada pelas gargalhadas. Hoje bebi uma refrescante limonada de memórias e sinto-me reconfortada e fresca. Guardo a chave no bolso, bem guardada, porque sei que, quando estou triste, preciso dessa chave mágica, para me dar um pouco de acalento aos dias mais cinzentos da minha vida.
                            Célia Gil

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Quando as ilusões desmoronam

Célia Gil

(imagem do google)

Durante toda a vida
acumulamos acontecimentos,
colecionamos sentimentos
até que esteja preenchida.
Construímos com eles altos
castelos de ilusão,
enfrentamos sobressaltos
mantendo-os em pé com dedicação.
Se os castelos tendem a desequilibrar-se
amparamo-los, a queda impedindo,
não queremos vê-los desmoronar-se
mas apenas subindo, erigindo...

Mas há um dia em que o vendaval
chega sem sequer avisar,
sem sequer dar sinal
e vira as ilusões de pernas para o ar.
Anos de um lento edificar
que vemos, espalhados pelo chão,
sonhos desfeitos sem nada restar
a não ser a dor da deceção.
E só há de duas uma solução,
escolha difícil, na decisão a tomar,
desistir, ceder, vegetar
ou começar do zero a nossa missão.
Então, há que encarar
o vendaval como uma lição,
o dia a dia será um novo recomeçar,
não o início de uma obrigação.
Para quê erguer novo castelo?
As ilusões não devem ser moldadas.
Para quê viver com excesso de zelo
se as ilusões não se querem aprisionadas?

Cada dia será um novo dia,
um dia para viver a ilusão
que, com um pouco de sabedoria,
voltará a erguer-se do chão.

E quando vier a rajada
do vento da destruição,
descerá em nós qual alvorada
e fará brotar nova ilusão.
Insistente, desprendida, libertada
e preparada, sempre, para nova missão.
                                             Célia Gil

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