segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sonho verde-cinza

Célia Gil

(imagem do google)

No meu sonho há um bosque
com retalhos de árvores
que teimam em recortar
nevoeiros cerrados.
Há névoas que se estendem
e que o tornam sombrio.
Bebo a inspiração
dessa fusão verde-cinza.
Por um lado, o verde
que rompe levemente
caminhos de luz
em nevoeiros lusco-fusco.
Verdes de cheiro a pinho
projetados como miragens
entre as paredes cinza do bosque.
Promessas sussurradas
por pequenas folhas atrevidas
qual veio de água
que espera ser encontrado
em terra arenosa e seca.
Por outro lado, o cinza dominante
que recorta monstros imaginários
no medo humano,
engole e absorve
o tímido verde,
as frágeis folhas ousadas
que teimam invadir os seus domínios.
mas, no meu sonho,
toco essas folhas insistentes,
sinto-lhes o cheiro húmido.
De repente, de tenras
partem, frágeis, nas minhas mãos,
caem no escuro chão
onde deixo de as vislumbrar.
Sinto o sonho
escorrer-me por entre os dedos
e os olhos fecham-se em nevoeiro cerrado.
                                                  Célia Gil

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Dia de memórias tristes

Célia Gil

(imagem do google)


Hoje é daqueles dias
que me doem.
Daqueles dias 
que me comprimem o peito.
Imagens, memórias
percorrem-me a mente
mesmo sem querer,
são mais fortes que eu própria.
Hoje é daqueles dias 
em que todo o meu ser chove,
em que até me agonia
nos outros a alegria.
Os sorrisos que vejo
são desprovidos de sentido,
não correspondem ao que sinto.
Não quero ser egoísta,
mas a minha tristeza
quer apoderar-se dos meus olhos
e não consente outro sentimento.

E vejo-te, mãe,
vejo-te ainda mais que nos outros dias,
a tua mão morrendo na minha,
os teus dedos deixando
de pressionar os meus.
Sinto o peso desse abandono
e vejo a morte entrar em ti,
aos poucos, desde a ponta dos dedos
até se apoderar do teu coração.
Os teus dedos ficam roxos e frios,
frio que se apodera da minha alma
que recusa perder-te.

Serei sempre o teu passarinho,
tu, que me ensinaste a voar,
que me deste os alicerces
para ser quem sou.

Há dias assim...
                              Célia Gil

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Acabaram as palavras

Célia Gil

(imagem do google)

Não tenho mais palavras,
por isso remeto-me ao silêncio
dos meus dias cansados.
Calaram-se todas,
deixando-me nesta masmorra
triste e solitária.
Abro os braços ante a desertificação
procurando ajuda ou apoio.
Mas o vazio da voz dói-me na alma.
Abro a boca para falar
mas o som é mudo
e sofre ante a minha impotência.
Arre! Quero gritar e não posso!
Palavras prisioneiras da mente,
incontactáveis, sem futuro, sem presente.
Acabaram as palavras todas,
as de amor e as de dor,
as de jubilo e as de raiva.
Silenciaram-se,
emudeceram
prisioneiras em mim.
Os sentimentos remetidos ao silêncio
são vazios opressores
que doem na garganta.
Acabaram as palavras todas...
                                 Célia Gil

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Poesia, a redescoberta dos sonhos

Célia Gil
Resultado de imagem para homem sentado num banco de jardim
(imagem do google)

Domingo, fim de tarde.
Um homem sentado
num banco de jardim
que dá para o mar.
Não contempla o horizonte,
lê um jornal pensativo.
Horas repetidas
repousam em notícias
mesmas de três dias repetidos,
mesmas em jornais consecutivos.
Nos seus olhos
mora o reflexo da atualidade,
tristezas, desastres, catástrofes,
realidade nua,
demasiado crua.
Burlas, vigarices, desvios,
pobreza, fome, incerteza.
Nos seus olhos
há cansaços,
há sonhos por concretizar,
projetos por realizar.
Cansados, os seus olhos
fecham-se por um momento.
E em breve sonho agitado
surge o poeta
devolvendo-lhe sonhos perdidos,
revelando-lhe sentimentos esquecidos,
momentos adormecidos...
A realidade suaviza,
a crueldade ameniza
e até o sol ganha reflexos cor-de-rosa
no horizonte.
O homem dobra o jornal,
sorri porque redescobriu o sentido da vida.
                                                     Célia Gil

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Conta-me histórias

Célia Gil


(imagem do google)

Quantas histórias na mente guardamos,
contadas, adormecidas, imaginadas,
reveladas, escondidas, sonhadas,
histórias que esquecemos, lembramos.

Conta-me histórias, avó, conta-me histórias!
Mesmo as que ouvi vezes sem fim,
deixa que escute tudo o que em mim
jaz no pó das minhas memórias.

Ainda que já as tenha ouvido,
parece sempre, sempre a primeira vez.
Vejo novos pormenores com mais nitidez,
descubro em cada uma um novo sentido.

Histórias que passam, vão e permanecem
numa dança de memórias rodopiante,
risos antigos baloiçam de forma constante,
ecos de momentos que não se esquecem.
                                                  Célia Gil

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ler...

Célia Gil


(imagem do google)

Ler não é um ato simples,
não se pode sequer definir.
É mais, muito mais…
Escolher um livro é esperar a química
atração à primeira vista.
É sentir que é “aquele”,
“aquele” é o livro,
aquela a capa,
aquela a ilustração,
aquela a história que quero ler.
E esse inicial impacto
é magia, é química, é tacto,
é sonho, é crença, é olfato.
É querer, é ter, é poder,
é desejar, é esperar, é ler.
Criamos laços num ato de entrega
entre o livro que se desvenda
e o nosso olhar que o anseia.
E é neste processo sensual,
carismático ritual
que nos torna num só.
Eu passo a integrar o livro,
a história, o poema, a memória,
que depende de mim
para ganhar novos sentidos,
o principal sentido: ser lido!
                                      Célia Gil

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